Carta ao Rio

Luciana Bruno

Rio de Janeiro, eu te amo, mas você está me deixando pra baixo. Me recebeu de braços abertos, com o perdão do clichê, mas há quatro anos estou me adaptando à sua guerra diária. Penso todos os dias se um dia vou me sentir em casa, se o problema sou eu ou se é você.

Rio, eu gosto dos seus biscoitos globo, das suas ruas sempre cheias, do céu previsível, da atmosfera de alegria às vezes fingida, às vezes real, da espontaneidade que absorvi (um pouco), do mate gelado e da perspectiva de um horizonte (que, confesso, às vezes fico meses sem ver).

Rio, eu gosto do seu circo voador, das conversas com estranhos que começam do nada, do motorista do ônibus que para e toma um café com os passageiros esperando, do aterro do flamengo, da vista da ciclovia pra baía de guanabara e de ir caminhando entre copacabana e o arpoador.

Não me entenda mal, eu gosto de quase não usar calça jeans, de ir à praia às seis da tarde só pra ver o pôr do sol como uma hippie, de ver semelhanças do seu centro com Buenos Aires, de encontrar meus amigos de dia, de encontrar meus amigos em lugares em que não é preciso pagar, de ter descoberto as potencialidades de uma pracinha.

Mas, Rio, desculpa falar, não curto quando você sacaneia. Não curto suas conversas altas que não são brigas, mas parecem ser, seu total desprezo pela cidade fora da zona sul, seu chinelo pra ir ao cinema.  Não se irrite, mas não gosto de ser enganada pelos taxistas, de sempre pensar que estou sendo enganada por ser mulher e paulista, da violência das relações e da falsa intimidade que raramente vira amizade.

Rio, meu amor, não gosto do seu baixo gávea, dos seus playboys e do seu rede globo way of life. Eu te amo, mas está fogo aguentar o lixo espalhado mesmo depois do fim da greve, o apartheid do metrô de manhã, pretos nos trens indo da zona norte pra zona sul, brancos nos trens indo da zona sul pro centro, o apartheid da praia de domingo, pretos no flamengo e arpoador, brancos em ipanema e leblon.

Rio, eu te amo, mas não acho legal seu metrô com dez tipos de bilhetes para dez tipos de catracas, seu metrô que não vai a lugar nenhum, seus ônibus que você tem a cara de pau de chamar de metrô de superfície, seus ônibus de verdade que remetem à minha infância nos anos 90 de tão velhos e os 3 reais que eu tenho que pagar pra andar neles.

Rio, eu te amo, e poderia até começar a falar da sua PM, de como me assustei na primeira vez que vi seus carros velhos andando devagar pelas ruas com fuzis pra fora, mas não vou falar sobre esse assunto, porque aí uma reconciliação se torna impossível.

Rio, eu realmente queria me acertar com você, já que toda vez que penso em ir embora me dá aquele aperto no peito como se eu fosse perder parte de mim. Vou tentar melhorar, mudar de bairro, ter mais plantas, ir às manifestações, visitar suas praias mais afastadas, a região serrana. Ter mais paciência.

Não sei por que, Rio querido, mas você parece mais caótico que São Paulo, mesmo tendo mar e parecendo uma cidade pequena. Não te entendo, juro, já parei de tentar. Talvez por isso eu isso te ame tanto. Talvez por isso eu te odeie assim.

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3 comentários sobre “Carta ao Rio

  1. Aplausos, paulistinha, captou bem o clima desta cidade partida que eu, carioca suburbana, sempre tentei – sem sucesso – explicar para os meus conterrâneos da zona sul.

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